Fazia muito tempo que não sabia mais o gosto da melancia virando suco, no quintal do interior de São Paulo. Muito menos a sensação de paz eterna, se bobear virando tédio, de deitar na rede e ficar por horas, sem dever nada pra ninguém, esperando a janta e em seguida alguns jogos com o baralho. Eu nunca gostei de ficar muito tempo na casa da minha avó Teresa e nunca entendi o quão necessário isso era pra mim. Nunca entendi nada de nada e fui obrigada a entender muito cedo, mas não era culpa de ninguém. E aí quando fomos (de pouquinho em pouquinho) parando de viajar tanto tempo, parar naquela cidadezinha mínima e quente demais, eu percebi que precisava. Mas não naquela época. Eu precisei desse tempo na rede, na melancia, no baralho nos últimos cinco anos. Depois de toda a euforia que acabei me acostumando, as férias na casa da vovó pareciam vestir meu número... Mas não deu. Então eu comecei a me acostumar à idéia de que não seria mais tão fácil e a cada dia ficava mesmo mais difícil. Não sei se passava ano e eu entendia melhor, se as coisas realmente pioravam e apareciam mais problemas, só sei que eu mal me lembrava da sensação que as férias no interior me proporcionavam.
De repente mudou e ficou mais leve que teu brinco de pena. Pareceu até mágica, parecia nuvens, parecia um montão de coisas inimagináveis. E, inversamente proporcional, a cada hora ficava mais leve, mais feliz e mais silencioso. Esse silêncio oscilava entre um barulho bom e os dois acabavam me dizendo que estava tudo bem. Há tantos anos que eu queria sentir que estava tudo bem e agora eu não preciso me esforçar pra perceber que realmente está.
Os problemas não foram raptados da minha vida, continuam lá pra me lembrar que ainda tem coisa pra se acertar. Mas agora me parece muito mais atingível, me dá vontade de citar um milhão de frases clichês, daquelas bem bocós. E eu desconfio que essa paz toda tem nome...