Eu lembro bem que eu sempre queria ver. Nunca podia por que: a) eu não tinha idade o suficiente pra ficar acordada até as seis da matina. b) eu não conseguia ficar acordada até as seis da matina. c) eu precisava acordar, “no outro dia”, as seis da matina. d) ninguém tinha saco o suficiente pra me acompanhar, à espera das seis da matina. (Podiam ter outros motivos também, mas demorariam cinco milhões de horas até eu lembrar). E então quando me perguntavam se eu preferia o pôr-do-sol ou o nascer do mesmo, eu, sem se quer pensar nem uma vez, respondia que “óbvio que o nascer do sol, preciso explicar?”. Na verdade eu nem queria explicar, por que sabia que me envergonhava do motivo. E ninguém pedia explicação, afinal é completamente normal admirar mais o nascer do sol. Mas era claro pra mim, que eu preferia o nascer do sol pelo motivo errado. Era porque eu raramente o tinha, uma vez quando ia pra praia, ou quando tinha festa de família ou mesmo quando precisava acordar cedo pra ir pra aula no inverno (mas nesse caso eu estava sempre atrasada demais pra reparar no sol).
E ao passar dos anos esse pensamento sempre quis chegar a mim e eu nunca dei muita corda. Eu estava mais é preocupada com o próximo romance que ia dar errado, com o próximo remédio que eu precisaria usar e com a próxima roupa do próximo final de semana. Mas hoje, nesse estado pós cirúrgico fenomenal, eu parei. Parei com quase todos os pensamentos e resolvi que só por hoje eu ia (ao menos tentar) pensar diferente. E, no banho, em meio aos questionamentos de quando meu nariz iria parar de sangrar, quando eu iria poder ver as pessoas que eu amo, o que eu ia comprar nesse fucking dia 12... e de repente o pensamento me pegou. Eu olhei pra janela, aquela cena maravilhosa. Essa é a parte boa de morar no fim do mundo, eu duvido que você tenha uma vista para um matagal sem fim. Duvido. E aí quando o sol se pôs, ficou atrás das árvores eu comecei a pensar por que diabos eu gostava do nascer e não do pôr. E relacionei com a época da minha vida (aquela em que eu escolhi que iria gostar do nascer do sol) aquela em que eu gostava da luta, mas não ficava pra apreciar o prêmio, que eu simplesmente não valorizava o que tinha em mãos. Então eu vi que eu encontrei, enfim, a mudança. Eu que hoje gosto do nascer do sol por que ele me traz a manhã, e acompanhado com o barulho do mar me traz uma paz sem fim. É como a tranqüilidade que te faz crer em coisas diferentes, você muda e nem vê.
(o título é o mesmo de outro texto, mas é que coube tão bem nesse...)