segunda-feira, 26 de novembro de 2007

... quando o Sol se despedisse.

Pare de pensar essas bobagens. Eu sinto vergonha por você, por ter acreditado no conto de fadas que te vendi. Não uso um vestidinho azul-bebê, tampouco vim aqui pra te trazer dinheiro em troca de um pedaço teu. E nem se você rezar todas as noites me tornaria essa Fada do dente.
E nem quero, você não gosta muito dela. Acha que a cor do vestido é sem graça demais; que cabelo é sem brilho e sem corte; e que a bolsa-dos-dentes é da coleção de 2000 (e que nem naquela época fez sucesso). Acha que quando ela vem pra trocar tua velharia por moedas brilhantes é desconfortável, mas nisso eu tenho que discordar. Qual o prejuízo, se logo vai ganhar no lugar algo de utilidade incomparável? Isso depois de ter vendido teu dente mofado por muito mais do que ele valia. Mas é que, mais uma vez, você enxerga só o que consegue. Mesmo que tenha nascido com a córnea e o cristalino perfeitos, usa uns óculos com 2 graus em cada lente que só te embaça a vista, por opção.
E eu não vou te avisar de novo, vê se pára de acreditar na minha fantasia. Moldei os sapatos, perderam o salto em nome dos pés cansados; as unhas são clarinhas, perdi a vontade das cores vivas; os brincos diminuíram o tamanho, os grandes atrapalhavam os abraços. E tem também o coração. Ali, ó. Tá vendo? Aquele que você tanto criticou. Essa soma da tua falta de percepção com a minha realidade inventada e imposta só serviu pra fazer confusão.
Então tira esses óculos e presta bem a atenção: o coração não é como te pareceu ser. Apesar das cicatrizes existirem em lugares opostos das tuas, elas estão ali sim. E mesmo que você bata o pé e duvide com toda tua força, podem ter a grande proporção daquelas que você fala com tanta intensidade. Elas só existem em lugares estratégicos, escondidas, pra ninguém colocar defeito.
Esse faz-de-conta nos servia antes, atualmente tem na loja uns mais atualizados que ficariam muito charmosos com o meu colar novo. E sabe o porquê eu escolhi a tal fada? É que eu previ, no momento em que te olhei nos olhos, os passos do meu coração. Por isso me moldei assim, sabia que poderia te seguir quando o Sol se despedisse, com a desculpa de que tinha o que fazer ali. Mas a verdade é que eu passava as noites te observando. Te fiz menininho, pra dormir bonitinho. E quando chegava minha hora, levava um dentinho teu, por que sabia que hoje a saudade seria grande. E até comecei a falar no diminutivo. Quis levar não algo que me lembrasse você, por que quando te admirava dormindo, esperava que você estragasse a minha bonita visão de você. Então eu quis algo que lembrasse o nosso tempo, a pureza que te moldei, a bolsa que você caçoava e as unhas que você gostava. E você?